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As novas tecnologias não escondem a cultura subjacente

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.10.16

 

 

É raro ver uma situação social e económica tão mal gerida como esta actual dos táxis vs carros não identificados de transporte de passageiros.

Como a maioria dos consumidores de notícias, debates televisivos, discursos directos e redes sociais é acrítica, não observa nem reflecte, aderiu de imediato às plataformas sem questionar o que está por trás.

É por isso que o barómetro do Prós e Contras apontou para as plataformas.

E é por isso também que nas redes sociais se multiplicaram opiniões insultuosas e agressivas contra os táxis.


Há plataformas e plataformas. Há aplicações e aplicações. As novas tecnologias não escondem a cultura subjacente. Como não escondem o tipo de economia que praticam. 

A estratégia é invariavelmente a mesma: entra-se num sector de mercado com o inatacável argumento de facilitar a vida ao consumidor, poupar tempo e dinheiro, utilizando as novas tecnologias, e empurram-se os que já existem para dentro ou para fora. O céu é o limite, tudo pelo progresso, afinal estamos no séc. XXI, tudo pela liberdade de mercado, pelo bem-estar do consumidor, quantos mais melhor.

A cultura subjacente é apenas e tão somente a mais pueril e selvagem: o lucro fácil e garantido pelo menor esforço de investimento e pela menor preocupação com a segurança do próprio consumidor.


Por isso soa tão estranha a atitude dos responsáveis do governo pela gestão deste conflito social e económico. Desde a sua ignorância, ausência de visão e de cultura do interesse público, até à sua arrogância, cinismo e mesmo falta de respeito pelo cidadão que paga impostos, neste caso pelo motorista de táxi e pelo consumidor. 

Um gestor público deve prevenir problemas em vez de os agravar. Qualquer liderança com um mínimo de empatia e de bom senso teria percebido que um sector fragilizado e em desespero age de forma emocional. E quem sabe se isso não faria parte da estratégia para as negociações - e assim se entenderia a oferta dos 17 milhões? Pior é impossível.


Esperemos que o PM, quando aterrar da China, consiga desenredar e clarificar esta triste situação. O governo tem promovido a cultura da sensibilidade pelas questões sociais e o respeito pelos mais vulneráveis. 

Não se trata, por isso, de um sector obsoleto vs um sector futurista, trata-se de duas culturas de base perfeitamente identificáveis. 

No essencial, há 2 tipos de tendência da economia de séc. XXI: uma, selvagem e desregulada, sem responsabilidade social; outra, equilibrada, sustentável e responsável. Uma, anónima e impessoal; outra, identificada e de confiança.

Que tipo de economia quer o governo promover?

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

publicado às 17:12


6 comentários

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De Zzzzz a 12.10.2016 às 08:39

Obrigado. Não é todos os dias que se apanha aqui no Sapo um blog assim com tanta maturidade, clareza e lucidez. De facto, as pessoas embarcam nas ferramentas electrónicas, não as vêem como um meio e um instrumento a ser utilizados para fins inconfessáveis. Independentemente de todas as insuficiências, deficiências e excessos, fruto da insegurança e desespero reinantes e que saltam à vista não só nos táxis, mas também no jornalismo e um pouco por todo o lado no mundo do trabalho. Vivemos um tempo de patos bravos no salve-se quem puder e a exigir medidas severas de regulação, só que o Estado em Portugal sempre foi demasiado frágil.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 12.10.2016 às 17:49

Obrigada pelo comentário.
Estou sempre a aprender com a troca de opiniões.

Para alguém que está Zzzzz está bastante bem acordado. :)
Ana Gabriela
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De erreguê a 12.10.2016 às 10:28

Excelente post. Acho que o Governo anda um pouco ao sabor do vento, veja-se agora por exemplo a febre das StartUps, com o seu culminar na Web Summit de Lisboa que se vai realizar de 7 a 10 de Novembro, até no IVA o Governo mexeu para que o evento se possa realizar por cá. Agora todos dizem que Lisboa é a melhor cidade do mundo, porque a Web Summit se vai realizar aqui, OK é importante, mas fazer disso um acontecimento que vai mudar tudo não é bem assim. Os membros do Governo andam todos felizes e contentes, vamos ter a Meca das StartUps na Capital Portuguesa, boa vamos sair da crise, e criar milhares de postos de emprego, será assim tão bom? Do universo total de todas as StartUps criadas em todos o mundo, 90% ficam pelo caminho a acabam por deixar de existir, isso porque é muito fácil fechar uma StartUp, cria um numero de postos de trabalho assentes em trabalho precário, logo é mais fácil de despedir. Está assente em investimentos de alto risco habituados a saltar de um lado para o outro, logo é mais fácil de deixar morrer o negócio e procurar outro. Só 10% das StartUps consegue vingar, e muitas delas depois são compradas por majors que fazem delas o que quiserem, a UBER é um caso de uma dessas StartUps de sucesso. O PM Português anda nas nuvens com as StartUps até convidou as StartUps Chinesas a virem a Lisboa, quando as listas de participação já estão fechadas, sem comentários.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 12.10.2016 às 17:55

Erreguê
Obrigada pelo comentário e pelas informações sobre as Startups.
Não fazia ideia dessa percentagem de insucesso. Nem a facilidade com que saltitam deixando os colaboradores pelo caminho com essa facilidade. Só ouvimos falar dos casos de sucesso. :)
Ana Gabriela
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De Moniz a 17.10.2016 às 08:34

Claramente voçê não utiliza táxis ... e ainda lê livros em papel !!
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 17.10.2016 às 10:45

Moniz

Utilizo o táxi, autocarro, comboio e metro.
Praticamente todas as minhas leituras actuais são digitais.
Também recorro aos vídeos para muitos temas que me interessam.

As novas tecnologias vieram abrir-nos um mundo de possibilidades, como este exemplo dos blogs: de que outro modo poderia dar a minha opinião num espaço público? :)
Também permitiram o acesso a muita informação importante, comunicar e trabalhar em rede, revelar situações de emergência de direitos humanos, de violência, de corrupção, etc.
São um suporte fundamental na saúde e na investigação, na deficiência motora e outras, na educação, na engenharia, na arquitectura, no ambiente, etc. etc.
E depois há o lado B, como em tudo... Depende da sua utilização.
Ana

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